Sônia Guajajara será homenageada pela escola Gaviões da Fiel
O samba que contextualiza tradição, política e resistência
Por Administrador
Publicado em 02/02/2026 19:16
Politica

O desfile da Gaviões da Fiel no Carnaval de São Paulo de 2026 promete ir além do espetáculo visual e sonoro característico da maior festa popular do país. Com o enredo “Vozes Ancestrais Para Um Novo Amanhã”, a escola transforma o Sambódromo do Anhembi em um espaço simbólico de denúncia, memória histórica e afirmação política, ao colocar no centro da narrativa a luta dos povos indígenas pela preservação da vida, dos territórios e do futuro do planeta.

 

Nesse contexto, o Maranhão ganha destaque ao integrar o imaginário do desfile por meio da homenagem à ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, liderança indígena maranhense cuja trajetória se confunde com as principais pautas contemporâneas do movimento indígena no Brasil.

 

Desde a concepção do samba-enredo, a proposta da Gaviões da Fiel se ancora na espiritualidade e na cosmovisão dos povos originários. A presença de termos como Yakoana, Xapiri e Omama revela uma pesquisa cuidadosa sobre a cultura Yanomami, trazendo para a avenida elementos sagrados que expressam a relação profunda entre humanidade, natureza e ancestralidade.

 

Ao incorporar esses conceitos, a escola rompe com abordagens folclorizadas e assume o compromisso de apresentar os povos indígenas como sujeitos históricos, detentores de saberes fundamentais para a sobrevivência coletiva.

 

Espaço de memória, denúncia e esperança

A letra do samba percorre diferentes territórios e etnias ao citar Tapajó, Cariri, Caeté, Potiguar, Tupi e Canindé, reafirmando a pluralidade dos povos indígenas brasileiros e a dimensão coletiva da resistência. Essa diversidade, longe de fragmentar a narrativa, constrói um coro unificado que denuncia séculos de violência, apagamento e exploração. O verso “Xawara devora o sonho e a mata padece” sintetiza esse processo ao associar a devastação ambiental às doenças e tragédias impostas pelo avanço predatório sobre os territórios indígenas.

 

Ao mesmo tempo, o samba propõe uma ressignificação simbólica ao transformar figuras do imaginário indígena em signos de superação. Quando afirma que “Anhangá é luz pra vencer cicatrizes”, a letra desloca a entidade do campo da demonização para o da cura e da resistência, sugerindo que a memória ancestral também é instrumento de enfrentamento às marcas deixadas pela colonização e pela violência contemporânea.

 

O tom político do enredo se intensifica ao convocar o Brasil — personificado como “mãe hostil” — a ouvir os filhos originários desta terra. A crítica direta à exclusão histórica ganha contornos atuais diante de conflitos fundiários, ataques a territórios indígenas e retrocessos ambientais. Nesse sentido, o verso “É hora de reflorestar o pensamento” funciona como eixo conceitual do desfile, propondo uma mudança estrutural de mentalidade que reconheça a centralidade dos povos indígenas para a reconstrução do país, simbolizado pelo nome ancestral Pindorama.

 

A escolha de Sônia Guajajara (foto) como uma das personalidades homenageadas reforça a atualidade e a força do enredo. Sua trajetória, marcada pela atuação no movimento indígena, pela projeção internacional da pauta ambiental e pela chegada a um espaço estratégico do governo federal, é apresentada como continuidade da luta ancestral em novas arenas de poder. A homenagem reconhece que ocupar espaços institucionais não significa romper com a ancestralidade, mas ampliá-la, levando a voz dos povos originários para o centro das decisões que impactam seus territórios e modos de vida.

A sinopse do enredo, que vem conquistando uma legião de fãs, antecipa o caráter manifesto do desfile ao afirmar que os povos indígenas seguem vivos e atuantes, guardiões de uma terra que não tem dono, mas tem responsáveis. A ideia de que “a voz é flecha que atravessa o tempo” traduz a proposta estética e política da escola: fazer da avenida um território de escuta, onde passado, presente e futuro se encontram.

Com “Vozes Ancestrais Para Um Novo Amanhã”, a Gaviões da Fiel aposta em um Carnaval que ultrapassa o entretenimento e se afirma como ferramenta de reflexão social. O desfile de 2026 se anuncia como um marco no carnaval paulistano ao transformar a festa em espaço de memória, denúncia e esperança, reafirmando que não há futuro possível sem o reconhecimento, o respeito e a proteção dos povos indígenas do Brasil.

 

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